Alexander Gieg: Polêmicas!

O que se passa na minha mente, e algo mais.

Sábado, 26 de Julho de 2008

O que é a Filosofia?

Uma das mais belas respostas que conheço à questão do título são as duas páginas que, sob este título, formam a introdução ao genial livrinho de Mário Ferreira dos Santos, Convite à Filosofia e à História da Filosofia. Vale a pena compartilhá-la:

O QUE É A FILOSOFIA?

Em suas longas e demoradas especulações através dos séculos, tem o homem constantemente perguntado. E as respostas às magnas e mais importantes perguntas levaram-no a formular outras que se algumas vezes satisfizeram a alguns, não satisfizeram a todos e, por sua vez, provocaram novas perguntas.

Perguntou o homem, sobre si mesmo: Quem sou? De onde vim? A ANTROPOLOGIA procura responder-lhe essa pergunta. E a COSMOLOGIA, que estuda a ordem do cosmos, procura responder-lhe sobre a origem deste, de onde veio, qual o primeiro princípio. E vem a TEOLOGIA, ciência das coisas divinas, para discutir as razões e motivos a favor ou a desfavor da crença de Deus, o ser criador.

E se Deus existe, porque o bem e o Mal? Porque não é diferente o mundo? E dessas perguntas, outra disciplina, a TEODICÉIA (de Theos, Deus, e dikê, justiça, em grego), é a quem cabe responder se há ou não justiça no mundo.

E como sabemos? E vem a GNOSEOLOGIA para explicar-nos o conhecimento.

Como se dá o saber culto? E eis a EPISTEMOLOGIA, que estuda o saber das diversas ciências.

E como formou o homem a sua inteligência? E eis a PSICOGÊNESE, que lhe ensinará e discutirá os problemas referentes à formação do psiquismo humano. E o espírito humano, que é criador, como surgiu? E sobre esse espírito criador surge outra disciplina, a NOOGÊNESE, que estuda a gênese do nous, o espírito, e, finalmente, a NOOLOGIA, a ciência do espírito.

E como funciona esse psiquismo? E eis a PSICOLOGIA, que se encarrega de propor respostas às perguntas formuladas aqui.

Mas, significam as coisas algo, dizem mais do que o fenomênico? E eis a SIMBÓLICA, que examina as significações das coisas.

E há algo mais oculto, que possamos penetrar mais profundamente? E eis a MÍSTICA, que quer responder a essas perguntas.

E as coisas são belas, apresentam em si mesmas algo que lhes dê outro valor. E então é a ESTÉTICA que estudará esse ponto.

E o transcendente? Poderemos alcançar o que está além de nós, além da nossa experiência? E eis a METAFÍSICA GERAL, a ONTOLOGIA, para responder-lhe a tais perguntas.

E como se dão os factos do universo? E temos a CIÊNCIA, que procura explicar o nexo do acontecer dentro de si mesmo, em sua imanência, no que mana em, dentro de si, nas coisas experimentáveis.

E como medir os factos e contá-los? E surge a MATEMÁTICA.

E como compreender o homem em suas relações com os outros? E a ÉTICA, a MORAL, o DIREITO, a HISTÓRIA e a SOCIOLOGIA propõem-lhes respostas.

E como compreender o nexo dos pensamentos e usá-los da melhor maneira para atingir uma iluminação, que nos mostre mais nitidamente os factos? E eis a LÓGICA e a DIALÉCTICA.

E como explicar tudo isso, dar o nexo a tudo, juntar todo conhecimento humano, e analisá-lo num grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes, e

eis a FILOSOFIA.

É para ela, leitor, que este livro é um convite.

SANTOS, Mário Ferreira dos, Convite à
Filosofia e à História da Filosofia
, 3ª edição,
São Paulo: Logos, 1964, pp. 11-12.
Destaques no original.

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

YouTube

DCLugi é um dos grandes comediantes perdido em meios aos milhões de vídeos do YouTube, prato cheio para quem entende inglês. Abaixo, seu vídeo mais recente, num raro momento sem falas e portanto apreciável por todos:

E se inglês não é seu problema, não deixe de ver outro de meus favoritos. Como sempre, DCLugi interpreta todos os personagens:

Se você tem uma conta no YouTube, assine o canal. Se não tem, cadastre-se e então assine. Vale a pena!

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Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Mudanças

Um post rápido para informar que mudei de provedor de hospedagem. Há quase três anos eu vinha hospedando meu site com a Hoster, um provedor brasileiro de baixo custo, bastante fácil de usar, e com excelente suporte técnico. Agora o hospedo com a NearlyFreeSpeech (NFS para os íntimos), um provedor americano com custo ainda menor, sem qualquer facilidades técnica (a menos que você seja um programador ou usuário avançado), e também com excelente suporte técnico.

Se meu provedor anterior era bom e não estou reclamando dele, muito pelo contrário, recomendo-o a quem quer que tenha interesse em hospedar um site com o mínimo possível de esforço, então porque mudei? Basicamente, por dois motivos:

  1. Embora a Hoster seja barata, com preços começando em R$15,90, a NFS é mais. Ela não tem plano mínimo, paga-se apenas pelo uso efetivo. Como meu blog não tem gigabytes de textos e imagens, portanto não ocupa muito espaço em disco, nem é particularmente famoso, por isso não consome muita banda-passante, no fim das contas isso significa uma fatura mensal de R$0,20 ou menos (sim, na faixa dos centavos). O fato de eu ser um usuário avançado, claro, ajuda e muito, já que por aqui praticamente tudo envolve configuração manual via prompt de comando.
  2. A política da NFS vem bem a calhar para um site como o meu, já que ela tem como principal ponto forte (o preço baixo vem em segundo lugar) garantir a liberdade de expressão de seus clientes, donde seu nome: "nearly free speech" significa algo como "quase livre expressão". Basicamente, caso certa idéia tenha sua expressão protegida pela Constituição americana -- e os EUA ainda são o país com a mais ampla proteção legal à liberdade de expressão --, não importa o que seja dito, a NFS garante que manterá o site no ar e, se for necessário, defenderá na Justiça o direito de ele continuar disponível, só retirando-o por ordem judicial. Em épocas de politicamente correto exacerbado essa é uma postura mais do que bem vinda.

Portanto, se você se encontra em situação semelhante à minha e deseja um provedor com fortes tendências libertárias, informe-se sobre a NFS. Caso contrário, e deseja um provedor mais tradicional, dê uma olhada na Hoster. Se tem interesse em preços baixos, analise ambas. As duas merecem.

E agora, claro, o disclaimerzinho que se espera: não sou afiliado a nenhuma das duas empresas, o que escrevi acima efetivamente reflete minha opinião, e etc. etc. etc. (Terminar a sentença fica de exercício para o leitor.)

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Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

A Torre Negra

"Eu não miro com a mão;
Aquele que mira com a mão
Esqueceu o rosto de seu pai.
Eu miro com o olho.

"Eu não atiro com a mão;
Aquele que atira com a mão
Esqueceu o rosto de seu pai.
Eu atiro com a mente.

"Eu não mato com a arma;
Aquele que mata com a arma
Esqueceu o rosto de seu pai.
Eu mato com o coração."

- Diga obrigado.
- Obrigado, sai.

Longos dias e belas noites!

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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Relacionamentos

Conversando com um amigo sobre relacionamentos amorosos, eu que não tenho experiências próprias no assunto, ele que as tem, os dois em certa medida estudiosos acadêmicos do assunto e adeptos de uma leitura um tanto quanto biologista da coisa, nós chegamos (mais ele do que eu, mas tendo a concordar) a uma hipótese curiosa, no melhor estilo filosofia de botequim.

Em resumo, a impressão que temos é que um indivíduo, homem ou mulher, consegue com naturalidade um parceiro que tenha uma quantidade semelhante de atributos positivos. Grosso modo, se por "atributos positivos" entendermos "beleza", "inteligência" e "riqueza", alguém com apenas um deles conseguiria facilmente um parceiro: a) bonito, mas burro e pobre; b) inteligente, mas feio e pobre; ou c) rico, mas feio e burro. Há exceções, claro, e a lista de atributos não se esgota nesses três (podemos imaginar ainda carisma, coragem, poder, maturidade etc.), nem todos têm o mesmo peso. Mas ainda assim, a evidência anedotal parece indicar que a regra geral é essa.

O corolário evidente é que, para obter um parceiro com dois atributos, ou três, ou quatro etc., o interessado quase que fatalmente terá que também desenvolver um segundo atributo positivo, e um terceiro, e um quarto etc. Tirando algum raro lance de sorte, não há muita escapatória.

Portanto, quem anda frustrado por não encontrar o "parceiro ideal" talvez devesse verificar se ele mesmo seria um "parceiro adequado" para essa pessoa idealizada. E se a resposta for não, de duas uma: ou reduzir as expectativas até um patamar sensato, ou dar um jeito de se elevar aos pré-requisitos necessários. Qualquer outra alternativa poderá até soar romântica, mas será irrealista.

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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Carnaval

Aproveitando a data, nada melhor do que um esclarecedor texto de René Guénon:

Sobre a Significação das Festas Carnavalescas*

In: "Os Símbolos da Ciência Sagrada", 9ª edição. Trad. J. Constantino Kairalla Riemma. São Paulo: Pensamento, 1993. Cap. 21, pp. 126-130.

A propósito de certa "teoria da festa" formulada por um sociólogo, assinalamos1 que essa teoria tinha, entre outros defeitos, o de querer reduzir todas as festas a um só tipo, que constitui o que se poderia denominar festas "carnavalescas", expressão que nos parece bastante clara por ser facilmente compreendida por todo mundo, pois o carnaval representa na verdade o que delas subsiste ainda hoje no Ocidente. Dizíamos, então, que se apresentam, em temas desse gênero, questões dignas de um exame mais aprofundado. De fato, o que sempre se evidencia nelas, antes de tudo, é uma impressão de "desordem" no sentido mais amplo da palavra. Como explicar então a existência dessas festas, não só numa época como a nossa, em que se poderia considerá-las simplesmente como uma das inúmeras manifestações do desequilíbrio geral, mas também, e mesmo com maior desenvolvimento, nas civilizações tradicionais, com as quais parecem incompatíveis à primeira vista?

Não é inútil citar aqui alguns exemplos precisos. Mencionaremos em primeiro lugar, a esse respeito, certas festas com caráter bem estranho celebradas na Idade Média: a "festa do jumento", em que esse animal, cujo simbolismo propriamente "satânico" é bem conhecido em todas as tradições,2 era introduzido até mesmo no próprio coro da igreja, onde ocupava o lugar de honra e recebia as mais extraordinárias provas de veneração; e a "festa dos loucos", em que o baixo clero entregava-se às piores inconveniências, parodiando tanto a hierarquia eclesiástica, quanto a própria liturgia.3 Como é possível explicar que tais coisas, cujo caráter mais evidente é sem dúvida de paródia e até mesmo de sacrilégio,4 tenham podido, numa época como aquela, ser não só toleradas, mas até mesmo admitidas de certa forma oficialmente?

Mencionaremos ainda as Saturnais dos antigos romanos, das quais o carnaval moderno parece ter derivado diretamente, ainda que seja apenas, para dizer a verdade, um vestígio muito empobrecido: durante essas festas, os escravos davam ordens aos senhores e estes os serviam;5 tinha-se então a imagem de um verdadeiro "mundo invertido", onde tudo se fazia ao contrário da ordem normal.6 Ainda que se pretenda comumente que havia nessas festas uma evocação da "idade de ouro", essa interpretação é inteiramente falsa, por completo, pois não se trata de uma espécie de "igualdade" que poderia ser vista a rigor como representativa, na medida em que o permitem as condições presentes,7 da indiferenciação primitiva das funções sociais; trata-se de uma inversão das relações hierárquicas, o que é inteiramente diferente. Uma tal inversão constitui-se, de modo geral, numa das características mais claras do "satanismo". É preciso, portanto, ver nelas algo mais relativo ao aspecto "sinistro" de Saturno, que por certo não lhe pertence enquanto deus da "idade do ouro", mas sim na medida em que hoje é apenas o deus decaído de um período encerrado.8

Podemos ver, por exemplo, que existe invariavelmente nas festas desse gênero um elemento "sinistro" e mesmo "satânico", e que, de modo especial, é precisamente esse elemento que agrada ao vulgar e excita a sua satisfação. Aí está, com efeito, alguma coisa que é muito apropriada, muito mais que outra qualquer, para satisfazer às tendências do "homem decaído", na medida em que essas tendências o impelem a desenvolver sobretudo as possibilidades mais inferiores de seu ser. É nisso em particular que reside a verdadeira razão de ser das festas em questão. Trata-se, em suma, de "canalizar", de algum modo, essas tendências e de torná-las tão inofensivas quanto possível, dando-lhes ocasião de se manifestarem, mas somente durante períodos muito curtos e em circunstâncias bem determinadas, estabelecendo, assim, para essa manifestação, limites estreitos que não é permitido ultrapassar.9 Se não fosse assim, essas mesmas tendências, por falta de receberem o mínimo de satisfação exigida pelo estado atual da humanidade, correriam o risco de explodir, se pudermos assim dizer,10 e estender seus efeitos à existência inteira, coletiva e individual, causando uma desordem muito mais grave do que a que se produz apenas durante alguns dias especialmente reservados a esse fim, e que é muito menos temível por estar como que "regularizada". Por um lado, esses dias estão colocados em certa medida fora do curso normal das coisas, de modo que não exerce sobre ele qualquer influência apreciável, e no entanto, por outro, o fato de que não existe aí nada de imprevisto "normaliza" de certa forma a própria desordem e a integra na ordem total.

Além dessa explicação geral, que é evidente quando se está disposto a refletir, existem algumas observações úteis que podem ser feitas, em particular no que diz respeito às "mascaradas", que desempenham um papel importante no carnaval propriamente dito e em outras festas mais ou menos similares. E essas observações confirmarão ainda o que acabamos de dizer. De fato, as máscaras de carnaval são em geral hediondas e evocam com freqüência formas animais ou demoníacas, de modo que são como que uma espécie de "materialização" figurativa dessas tendências inferiores, até mesmo "infernais", que então é lícito exteriorizar. Mais ainda, cada um escolherá naturalmente, mesmo sem ter consciência clara disso, aquela que melhor lhe convém, isto é, aquela que representa o que está mais de acordo com suas tendências dessa ordem. Assim, poderíamos dizer que a máscara, supostamente destinada a ocultar o verdadeiro rosto do indivíduo, faz, ao contrário, aparecer aos olhos de todos o que ele traz em si na verdade, mas que de hábito deve dissimular. É bom notar, pois isso esclarece ainda mais a natureza de tais fatos, que existe aí uma espécie de paródia da "reversão" que, tal como explicamos em outro lugar,11 produz-se num certo grau do desenvolvimento iniciático; paródia, dizíamos, e contrafacção verdadeiramente "satânica", pois nesse caso a "reversão" é uma exteriorização, não mais da espiritualidade, mas sim, pelo contrário, das possibilidades inferiores do ser.12

Para terminar esse esboço, acrescentaremos que se as festas dessa espécie estão-se reduzindo cada vez mais, e só parecem despertar o interesse do povo, é porque, numa época como a nossa, elas perderam na verdade sua razão de ser.13 De fato, como se poderia tratar ainda de "circunscrever" a desordem e encerrá-la em limites rigorosamente definidos, quando está espalhada por toda parte e se manifesta sem cessar em todos os domínios em que se exerce a atividade humana? Se nos mantivermos presos às aparências exteriores e a um ponto de vista simplesmente "estético", poderíamos ser tentados a nos congratular com o desaparecimento quase completo dessas festas, em especial pelo aspecto "disforme" de que se revestem, como é inevitável. Mas essa desaparição, ao contrário, quando se vai ao fundo das coisas, constitui-se em sintoma muito pouco tranqüilizador, pois revela que a desordem irrompeu em todo curso da existência e se generalizou a tal ponto que, pode-se dizer, estamos na realidade vivendo um sinistro e "eterno carnaval".

Notas:

* Publicado na revista Études Traditionnelles, dez. 1945.
1. Ver a revista É.T., abr. 1940, p. 169.
2. Seria um erro querer opor a isso o papel desempenhado pelo jumento na tradição evangélica, pois, na realidade, o boi e o jumento, colocados lado a lado na manjedoura em que Cristo nasceu, simbolizam respectivamente o conjunto das forças benéficas e maléficas; tornamos a encontrá-los na crucificação, sob a forma do bom e do mau ladrão. Por outro lado, Cristo montado num jumento, sua entrada em Jerusalém, representa o triunfo sobre as forças maléficas, triunfo esse que se constitui na própria "redenção".
3. Esses "loucos", aliás, levavam um chapéu com orelhas compridas, claramente destinadas a evocar a idéia de uma cabeça de jumento, traço este que é muito significativo do ponto de vista em que nos colocamos.
4. O autor da teoria a que nos referimos reconhece a existência dessa paródia e do sacrilégio, porém, atribuindo-os ao seu conceito de "festa" em geral, pretende que sejam elementos característicos do próprio "sagrado", o que não só é um paradoxo exagerado, mas, também, é preciso dizer, claramente, uma contradição pura e simples.
5. Encontram-se, inclusive, em países muito diferentes, casos de festas do mesmo gênero em que se chegava a conferir, temporariamente, a um escravo ou um criminoso as insígnias da realeza, com todo o poder que comportam, com a ressalva de dar-lhe morte assim que a festa terminasse.
6. O mesmo autor fala também, a esse respeito, de "atos às avessas" e mesmo de "retorno ao caos", o que contém ao menos uma parte da verdade, mas, por uma surpreendente confusão de idéias, assimila o caos à "idade de ouro".
7. Referimo-nos às condições do Kali-Yuga ou da "idade de ferro", da qual a época romana e a nossa fazem parte.
8. Que os antigos deuses tornam-se, de uma certa forma, demônios, é um fato constatado com grande freqüência, e a atitude dos cristãos em relação aos deuses do "paganismo" é um caso particular disso, mas que parece não ter sido jamais explicado como deveria. Não podemos, contudo, insistir sobre este ponto, que nos levaria fora do nosso tema. Deve ficar bem entendido que isso tudo se refere apenas a certas condições cíclicas, mas que não afeta ou modifica em nada o caráter essencial desses mesmos deuses enquanto simbolizam intemporalmente princípios de ordem supra-humana, de modo que, ao lado desse aspecto maléfico acidental, o aspecto benéfico, apesar de tudo, subsiste sempre, até mesmo quando completamente desconhecido pelas "pessoas de fora". A interpretação astrológica de Saturno poderia fornecer um exemplo muito claro a esse respeito.
9. Isso corresponde à questão do "enquadramento" simbólico, à qual nos propomos voltar. [Ver cap. 66.]
10. No fim da Idade Média, quando as festas grotescas de que falávamos foram suprimidas ou caíram em desuso, produziu-se uma expansão da feitiçaria desproporcional ao que se havia visto nos séculos precedentes. Esses dois fatos têm uma relação muito direta entre si, ainda que geralmente despercebida, o que é, aliás, mais surpreendente na medida em que existem algumas semelhanças evidentes entre tais festas e o sabá dos bruxos, em que tudo se fazia também "às avessas".
11. Ver Initiation et réalisation spirituelle, cap. XXX: L'Esprit est-il dans le corps ou le corps dans l'esprit?
12. Havia ainda, em certas civilizações tradicionais, períodos especiais em que, por razões análogas, permitia-se que as "influências errantes" se manifestassem livremente, tomando-se no entanto todas as precauções necessárias em tais casos. Essas influências correspondem, naturalmente, na ordem cósmica, ao que é o psiquismo inferior no ser humano e, por conseguinte, entre a sua manifestação e as influências espirituais existe a mesma relação inversa que entre as duas espécies de exteriorização que acabamos de mencionar. Afinal, nessas condições, não é difícil compreender que a própria mascarada parecer figurar, de certo modo, o aparecimento de "larvas" ou espectros maléficos.
13. Isso quer dizer que, para falar claro, elas são apenas "superstições", no sentido etimológico da palavra.

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Vibrações - 2

Faz algum tempo que ando procrastinando a postagem desse texto. Mas é como se diz: antes tarde do que nunca.

Após postar o artigo Vibrações pude ter algumas conversas produtivas sobre o assunto com amigos, e um deles comentou o seguinte:

"Claro que por outro lado a neurociência moderna fala sim em 'vibrações'. Só que chamam a coisa de 'ondas cerebrais'. Quanto à freqüência, de 8 a 12 Hz são chamadas de ondas alfa, de 12 a 30 Hz, beta." - R.

Sim, verdade. Evidentemente não é disso que, seja Hartley, sejam as religiões modernas, falam. Mas é uma característica típica do processo científico reaproveitar aspectos pontuais de insights anteriores abandonados, mesmo porque é raro alguma idéia estar totalmente errada. Muitíssimo equivocada, sim, sem dúvida. Mas 100%? Difícil.

O problema com as religiões modernas, sobretudo aquelas que se pretendem "científicas", é que não fazem o mesmo. Cada uma toma o conhecimento científico do momento de sua origem, cristaliza-o em artigos de fé, e a partir daí busca reinterpretar a ciência subseqüente de modo a que se adapte à versão cristalizada. Que espírita, por exemplo, se contentaria em deixar de lado a noção novecentista de "vibrações", substituindo-a pelos prosaicos conceitos de relaxamento, concentração, sono, estado desperto etc. aos quais a moderna eletroencefalografia vincula as ditas ondas cerebrais? "Vou vibrar por você" é sem dúvida mais imponente do que um simples "vou pensar em você", ainda que essas duas sentenças expressem a mesma ação e nada digam a respeito dos "efeitos à distância" desse ato, supondo que os haja.

Essa fraqueza das religiões modernas diante de qualquer mínimo desenvolvimento científico é inerente a seu modo de formação. Sua fonte é puramente humana, e portanto, por definição, finita e temporalmente delimitada. Assim como seus fundadores, elas são sempre e invariavelmente "de seu tempo", o mesmo valendo para todas as atualizações que sofram, as quais, passados poucos anos, também se tornam "de seu tempo". É estrutural. Como a transcendência lhes é estranha e mesmo ininteligível, jamais alcançam qualquer validade permanente.

Evitar isso é simples: basta vincular-se à ortodoxia de alguma religião tradicional. Elas têm uma longa experiência em observar intactas, de fora, os vai-e-vens das teorias científicas que se sucedem velozmente sem jamais chegar a qualquer conclusão definitiva, e por isso constituem o mais evidente exemplo, ainda dentro da temporalidade, do que seja a Eternidade. O resto é caos.

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Que polêmicas?

Ainda estou longe de ser um membro efetivo da blogosfera, mas o comentário (o primeiro!) de um velho amigo ao meu post anterior, Vibrações, me lembrou de que tenho um blog e que vez por outra preciso atualizá-lo. Atualizo-o, pois! Novos posts em seguida.

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Sábado, 24 de Novembro de 2007

Vibrações

Quando eu era espírita, uma das noções que me incomodavam era aquela, comum ao Espiritismo, à New Age e a outras correntes pseudo-religiosas modernas, de que há alguma coisa em nós que "vibra", isto é, que certas "vibrações" indicam "elevação moral" enquanto outras indicam seu contrário, que precisamos "vibrar por" outrem (que esteja com problemas, por exemplo), e por aí vai. Chato como sempre, eu vivia perguntando: "Gente, que 'vibrar' é esse? O que está 'vibrando'? Dá para medir minha freqüência, ou a de outro?" Mas nunca obtive resposta.

Passados alguns anos, essa antiga dúvida parece ter sido sanada. Um dos tópicos de ontem (23/11) da aula de Teoria do Conhecimento & Filosofia da Ciência I foram os precursores oitocentistas da psicologia experimental subjetiva do século XIX. Um destes precursores, o filósofo inglês David Hartley, parece ser, um tanto indiretamente, o originador da coisa.

Hartley, como quase todos os cientistas da época, estava bastante impressionado com os sucessos da Física de Newton, Galileu e cia. Incomodado com o fato de que as teorias psicológicas da época não se encaixavam bem na cosmovisão mecânico-determinista que inspirava a nova Física, propôs em seu livro Observations on Man, his Frame, his Duty, and his Expectations, de 1749, que nossas sensações subjetivas são na realidade vibrações numa espécie de "éter nervoso".

Para um mecanicista clássico, ações "à distância" eram consideradas pensamento mágico e vistas como impossíveis. Qualquer fenômeno físico, fosse qual fosse, teria sempre, necessariamente, que se dar por meio de partículas materiais batendo em outras partículas materiais, a exemplo de bolas de bilhar que vão transmitindo seu movimento umas às outras. Assim, o éter era a substância material e imponderável que se acreditava preencher o espaço entre os planetas e servir de meio de transmissão para fenômenos como o calor do Sol, a luz das estrelas, a gravidade etc.

O que Hartley supôs, portanto, foi: primeiro, que os nervos e o cérebro contém éter ou algo parecido ao éter; segundo, que nossas sensações subjetivas são na realidade esse éter nervoso vibrando sob o efeito dos impactos recebidos pelo corpo; terceiro, que essa vibração se propaga até chegar ao cérebro; e quarto, que o éter cerebral continua vibrando fracamente após receber a vibração vinda dos nervos, essa vibração residual constituindo nossa memória (os chamados "vibratiúnculos"). As memórias, sendo vibrações de partículas de éter, se enfraqueceriam com o passar do tempo (suponho eu), até que, cessado todo o movimento, as esquecêssemos.

Parece-me claro e verossímil que essa tese puramente mecânica, puramente determinista, e mais do que puramente moderna, se difundiu até entrar nos meios ocultistas e se tornar, com o passar do tempo, parte integrante das religiões surgidas nas décadas seguintes. Nisso ela compartilha o destino da teoria dos fluidos, uma antiga tese científica, hoje desacreditada, mas que subsiste no Espiritismo quase como artigo de fé.

Reconhecer que é a isso que se está fazendo referência quando se fala em "vibrações" é, penso eu, pôr mais um prego no caixão do dito "caráter científico" das religiões surgidas desde o século XVII: Ocultismo, Espiritismo, Teosofia, Nova Era e assemelhadas. Infelicidade para uns, felicidade para outros. No meu caso, quanto mais estudo, mas vou descobrindo que nada existe nesse meio que não seja, na melhor das hipóteses, variação quantitativa de características comum à modernidade como um todo. Diferenças qualitativas simplesmente não há: estão todas encerradas na modernidade, nenhuma a transcende. Não me restam mais dúvidas, portanto, de que eu ter me afastado dessas idéias foi uma decisão sensata.

Obs.: Revisado e expandido em 26 e 27/11/2007.

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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2007

Webcomics

Um passatempo que a Internet oferece são os webcomics, histórias em quadrinhos online. Acompanho três, todos comédias, em inglês, e os recomendo enfaticamente:

  • Faux Pas - Animais falantes e suas (des)venturas na fazenda. Humor leve para toda a família, com uma nova tira publicada todas as segundas, quartas e sextas-feiras.
  • VGCats - Paródias de video-games e filmes protagonizadas por dois gatos antropomórficos. Algumas piadas são pesadas, então tome cuidado. Atualizado todas as segundas-feiras.
  • Looking For Group - Sátira e paródia extrema de alta-fantasia medieval em geral e de World of Warcraft em particular. Não existe bruxo morto-vivo torturador, assassino e genocida mais adorável do que Richard, é ler para crer. Atualizado todas as segundas e quintas-feiras.

Já webcomics brasileiros, não acompanho nenhum.

Obs.: Revisado em 27/11/2007.

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Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

O fim de uma era

É triste. Jogo World of Warcraft a dois anos, e o grupo de jogadores ao qual me filiei ("guilda", no jargão do jogo) no meu segundo dia, e do qual venho participando desde então, simplesmente deixou de existir. Os antigos membros foram convidados a se juntar a uma de duas "guildas" recém-formadas, a primeira voltada a jogadores mais casuais (meu caso), a segunda a jogadores quase obsessivos. Na prática isso faz pouca diferença em termos de jogo, mas não deixa de ser uma experiência equivalente à de mudar de endereço dentro de uma mesma cidade: quase tudo permanece igual, mas o ambiente é outro.

Obs.: Revisado em 27/11/2007.

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Segurança Aleatória

Vez por outra surgem boas idéias para um combate efetivo a atividades terroristas e assemelhadas. Essa notícia é uma delas. Um aeroporto americano está usando um software que elimina toda e qual previsibilidade das rondas de segurança. Como elas podem começar e terminar a qualquer momento, seguindo trajetos completamente aleatórios, não havendo qualquer rotina identificável, agressores e criminosos perdem uma de suas principais vantagens: o conhecimento sobre o inimigo.

Também há conseqüências secundárias do ponto de vista ficcional. De agora em diante nenhum autor de ficção científica realista poderá usar a "rotina da guarda" como elemento válido da trama.

Obs.: Revisado em 27/11/2007.

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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Inaugurando

Meu primeiro post usando o sistema Blogger do Google. Ele é simples, direto e fácil de usar, mas ainda não sei se o adoto em definitivo ou se parto para o MovableType ou o WordPress. Ambos são poderosos, mas exigem uma boa dose de configuração, e atualização constante. Se você tem alguma sugestão, sou todo ouvidos!

Obs.: Revisado em 27/11/2007.

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