Alexander Gieg: Polêmicas!

O que se passa na minha mente, e algo mais.

Sábado, 26 de Julho de 2008

O que é a Filosofia?

Uma das mais belas respostas que conheço à questão do título são as duas páginas que, sob este título, formam a introdução ao genial livrinho de Mário Ferreira dos Santos, Convite à Filosofia e à História da Filosofia. Vale a pena compartilhá-la:

O QUE É A FILOSOFIA?

Em suas longas e demoradas especulações através dos séculos, tem o homem constantemente perguntado. E as respostas às magnas e mais importantes perguntas levaram-no a formular outras que se algumas vezes satisfizeram a alguns, não satisfizeram a todos e, por sua vez, provocaram novas perguntas.

Perguntou o homem, sobre si mesmo: Quem sou? De onde vim? A ANTROPOLOGIA procura responder-lhe essa pergunta. E a COSMOLOGIA, que estuda a ordem do cosmos, procura responder-lhe sobre a origem deste, de onde veio, qual o primeiro princípio. E vem a TEOLOGIA, ciência das coisas divinas, para discutir as razões e motivos a favor ou a desfavor da crença de Deus, o ser criador.

E se Deus existe, porque o bem e o Mal? Porque não é diferente o mundo? E dessas perguntas, outra disciplina, a TEODICÉIA (de Theos, Deus, e dikê, justiça, em grego), é a quem cabe responder se há ou não justiça no mundo.

E como sabemos? E vem a GNOSEOLOGIA para explicar-nos o conhecimento.

Como se dá o saber culto? E eis a EPISTEMOLOGIA, que estuda o saber das diversas ciências.

E como formou o homem a sua inteligência? E eis a PSICOGÊNESE, que lhe ensinará e discutirá os problemas referentes à formação do psiquismo humano. E o espírito humano, que é criador, como surgiu? E sobre esse espírito criador surge outra disciplina, a NOOGÊNESE, que estuda a gênese do nous, o espírito, e, finalmente, a NOOLOGIA, a ciência do espírito.

E como funciona esse psiquismo? E eis a PSICOLOGIA, que se encarrega de propor respostas às perguntas formuladas aqui.

Mas, significam as coisas algo, dizem mais do que o fenomênico? E eis a SIMBÓLICA, que examina as significações das coisas.

E há algo mais oculto, que possamos penetrar mais profundamente? E eis a MÍSTICA, que quer responder a essas perguntas.

E as coisas são belas, apresentam em si mesmas algo que lhes dê outro valor. E então é a ESTÉTICA que estudará esse ponto.

E o transcendente? Poderemos alcançar o que está além de nós, além da nossa experiência? E eis a METAFÍSICA GERAL, a ONTOLOGIA, para responder-lhe a tais perguntas.

E como se dão os factos do universo? E temos a CIÊNCIA, que procura explicar o nexo do acontecer dentro de si mesmo, em sua imanência, no que mana em, dentro de si, nas coisas experimentáveis.

E como medir os factos e contá-los? E surge a MATEMÁTICA.

E como compreender o homem em suas relações com os outros? E a ÉTICA, a MORAL, o DIREITO, a HISTÓRIA e a SOCIOLOGIA propõem-lhes respostas.

E como compreender o nexo dos pensamentos e usá-los da melhor maneira para atingir uma iluminação, que nos mostre mais nitidamente os factos? E eis a LÓGICA e a DIALÉCTICA.

E como explicar tudo isso, dar o nexo a tudo, juntar todo conhecimento humano, e analisá-lo num grande corpo, num grande saber, que seja o saber de tudo, que seja o saber dos saberes, e

eis a FILOSOFIA.

É para ela, leitor, que este livro é um convite.

SANTOS, Mário Ferreira dos, Convite à
Filosofia e à História da Filosofia
, 3ª edição,
São Paulo: Logos, 1964, pp. 11-12.
Destaques no original.

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Sábado, 12 de Abril de 2008

Proibição de Imagens

Para nós é bastante difícil entender as razões que levam às fortes restrições à produção de imagens de pessoas e seres vivos nas religiões monoteístas. Mas um pouco de Filosofia pode ajudar.

Em todos os povos, em todas as épocas, com a única exceção dos europeus a partir do século XV e daqueles por eles influenciados, o que atualmente inclui a maior parte do planeta, a mente humana sempre foi considerada passiva. O mundo era o elemento ativo, informando continuamente sua existência, suas características, sua realidade, a tudo e a todos. Conseqüentemente, ninguém "tinha" ou "produzia" idéias. Pelo contrário, quem expressava idéias eram as próprias coisas. Nosso papel de elementos passivos era apenas o de receber das coisas as Idéias — com "i" maiúsculo — das quais elas participam. Assim, por exemplo, ao ver um cavalo ou uma cadeira você não apenas recebia estímulos visuais (as cores, os formatos, a posição etc.), mas também recebia delas sua natureza de cavalo, sua natureza de cadeira etc. É como se dispuséssemos de um sexto-sentido capaz de perceber que aquela coisa é aquela coisa, e não outra.

Essas concepções formavam a base tanto do senso comum quanto da Filosofia antiga. E é dela que vem a melhor justificação racional da condenação da arte figurativa. Segundo Platão, no topo da hierarquia das Idéias está a Idéia de Bem, da qual tudo que é belo, e bom, e verdadeiro, participa. A rigor, somente a própria Idéia de Bem é rigorosamente boa, já que tudo o mais, inclusive as demais Idéias, no máximo "participa" de Idéia de Bem, sem no entanto ser ela. O que é o mal, pois, dentro dessa perspectiva? Nada mais, nada menos, do que o afastamento do Bem. O que nos leva a duas conseqüências: a) quanto mais distante algo estiver da Idéia de Bem, pior esse algo será; b) pode-se pensar esse afastamento como uma hierarquia. Observe, portanto, o que ocorre:

  • Temos no primeiro nível a própria Idéia de Bem. Ela é, por definição, a única total e completamente Boa.
  • Logo em seguida vêm as demais Idéias, como a de Grande, Cavalo, Triângulo, Humano, Vida e assim por diante. Elas todas participam quase que imediatamente da Idéia de Bem, além de serem imutáveis, eternas, imortais etc. Podemos dizer que estão a um grau de distância do Puro Bem.
  • Abaixo das Idéias temos o mundo concreto das coisas que nos cercam. Todas as coisas concretas participam de várias Idéias. Um ser humano é, por exemplo, participante das Idéias de Humano, Razão, Vida e muitas outras. Mas ele também participa das limitações do tempo e do espaço, crescendo, se movendo, envelhecendo, morrendo. Por serem participantes das idéias, pois, todas as coisas concretas são participantes indiretas da Idéia de Bem. Elas estão, por assim dizer, a dois graus de distância do Puro Bem.
  • E abaixo das coisas? Aqui temos tudo aquilo que participa apenas das coisas concretas, e não das Idéias que dão origem às coisas. É o reino da arte figurativa por excelência. Por quê? Porque quando um pintor pinta uma cama, ele está imitando aquela cama concreta, daquele quarto concreto, e não a própria Idéia de Cama. A arte figurativa, conseqüentemente, está a três graus de distância do Puro Bem.

Portanto, se o objetivo do Filósofo é o de promover o Bem, ele não pode ver valor na arte figurativa. Muito mais vale pô-la de lado e insistir com os homens para que se foquem na realidade concreta. Ou, melhor ainda, que se foquem no próprio mundo das Idéias, de onde as coisas que consideramos concretas obtém sua realidade. Afinal, na concepção clássica as Idéias são não apenas melhores, mas também mais reais do que todas aquelas coisas que meramente participam delas e as imitam, mesmo porque o Real também é uma Idéia que participa da Idéia de Bem.

O que não significa que todo tipo de arte é interdita. Para Platão, se um quadro busca representar não uma coisa, mas sim uma Idéia, ela é legítima. Um exemplo que ele próprio menciona é a antiga arte grega, desaparecida em sua época, e a arte egípcia. Por quê? Porque em ambas as imagens humanas são sempre, por assim dizer, "genéricas", bidimensionais, e rigorosamente idênticas umas às outras, constituindo-se portanto perfeitos símbolos da Idéia Ser Humano, e não deste ou daquele ser humano em particular.

Sabendo portanto como Platão entende a questão, ele que provavelmente nunca ouviu falar do Judaísmo, ainda que tenha sido provavelmente o primeiro monoteísta grego em sentido estrito, observemos agora o que, precisamente, o Antigo Testamento proíbe:

"Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra." (Êxodo 20:4)

Dada a explicação acima, como não ver que se trata da mesma interdição platônica, e até da mesma exceção? A arte figurativa que tenta imitar coisas ("semelhança do que há em..."), esta não pode. Já a arte que busca representar o mundo das Idéias, como por exemplo no desenho de figuras geométricas, nada contra.

No Islã o princípio é o mesmo:

Como contado por Aisha (a esposa do Profeta):
Comprei uma almofada com figuras (de animais) nela. Quando o Apóstolo de Deus a viu, ficou parado na porta e não entrou. Notei os sinais de desaprovação em sua face e disse-lhe, "Ó Apóstolo de Deus! Arrependo-me diante de Deus e Seu Apóstolo! Que pecado cometi?" O Apóstolo de Deus respondeu, "O que é esta almofada?" Eu disse, "Comprei-a para ti de modo que possas sentar-te nela em reclinares nela." O Apóstolo de Deus disse, "Aqueles que fizeram estas imagens serão punidos no Dia da Ressurreição, e ser-lhes-á dito, 'Dai vida ao que criastes.'" O Profeta acrescentou, "O Anjo da (Misericórdia) não adentra a casa em que existam figuras (de animais)."
(Bukhari, Volume 7, Livro 62, Hadith 110)

Assim como o é no Cristianismo, cujas vertentes tradicionais, seja o Catolicismo Romano medieval, seja a Igreja Ortodoxa, seja a Igreja Copta, tomam o cuidado de sempre desindividualizar toda e qualquer imagem figurativa de modo a não incorrer nem na proibição bíblica, nem na interdição platônica. Como bem explicou ontem um amigo meu, cristão ortodoxo, uma iluminura ortodoxa pode conter o desenho de alguns prédios para indicar que o cenário é uma cidade, mas será sempre apenas o número suficiente de prédios para indicar que se trata da Idéia de Cidade, nunca desta cidade em particular, e os próprios prédios serão distorcidos, para indicar que se tratam da Idéia de Prédio, e não deste ou daquele prédio em particular. Idem para humanos, animais, plantas, terrenos etc.

Agora, voltando a Platão: assim como há um terceiro grau de afastamento, também podemos supor que há um quarto grau, um quinto grau, um sexto grau e assim por diante. Desconfio que se ele voltasse à vida e tomasse conhecimento do que se entende hoje em dia por arte, sua reação seria do mais absoluto horror. Afinal, se a arte que ele critica é a que busca imitar coisas concretas, o que ele não diria, por exemplo, da arte impressionista, que busca expressar uma impressão subjetiva de uma coisa concreta? Ou da moderna arte abstrata, que busca expressar uma percepção particular de um estado subconsciente influenciado por impressões subjetivas? Ou pior ainda, de uma análise desconstrucionista de uma tal arte? Sem dúvida lhes atribuiria os graus subseqüentes, e viraria o rosto em desgosto.

Seja como for, por mais estranhas que nos soem tais proibições e restrições não são nem aleatórias, nem irracionais. Há fortes e sólidas razões por trás delas, ainda que a maioria de seus praticantes as ignorem. Bem entendidas, o desgosto se vai, e se não chegamos à aceitá-las para nós, pelo menos passamos a compreendê-las, e àqueles que as seguem.

Isso, por si só, já vale todo o esforço.

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Vibrações - 2

Faz algum tempo que ando procrastinando a postagem desse texto. Mas é como se diz: antes tarde do que nunca.

Após postar o artigo Vibrações pude ter algumas conversas produtivas sobre o assunto com amigos, e um deles comentou o seguinte:

"Claro que por outro lado a neurociência moderna fala sim em 'vibrações'. Só que chamam a coisa de 'ondas cerebrais'. Quanto à freqüência, de 8 a 12 Hz são chamadas de ondas alfa, de 12 a 30 Hz, beta." - R.

Sim, verdade. Evidentemente não é disso que, seja Hartley, sejam as religiões modernas, falam. Mas é uma característica típica do processo científico reaproveitar aspectos pontuais de insights anteriores abandonados, mesmo porque é raro alguma idéia estar totalmente errada. Muitíssimo equivocada, sim, sem dúvida. Mas 100%? Difícil.

O problema com as religiões modernas, sobretudo aquelas que se pretendem "científicas", é que não fazem o mesmo. Cada uma toma o conhecimento científico do momento de sua origem, cristaliza-o em artigos de fé, e a partir daí busca reinterpretar a ciência subseqüente de modo a que se adapte à versão cristalizada. Que espírita, por exemplo, se contentaria em deixar de lado a noção novecentista de "vibrações", substituindo-a pelos prosaicos conceitos de relaxamento, concentração, sono, estado desperto etc. aos quais a moderna eletroencefalografia vincula as ditas ondas cerebrais? "Vou vibrar por você" é sem dúvida mais imponente do que um simples "vou pensar em você", ainda que essas duas sentenças expressem a mesma ação e nada digam a respeito dos "efeitos à distância" desse ato, supondo que os haja.

Essa fraqueza das religiões modernas diante de qualquer mínimo desenvolvimento científico é inerente a seu modo de formação. Sua fonte é puramente humana, e portanto, por definição, finita e temporalmente delimitada. Assim como seus fundadores, elas são sempre e invariavelmente "de seu tempo", o mesmo valendo para todas as atualizações que sofram, as quais, passados poucos anos, também se tornam "de seu tempo". É estrutural. Como a transcendência lhes é estranha e mesmo ininteligível, jamais alcançam qualquer validade permanente.

Evitar isso é simples: basta vincular-se à ortodoxia de alguma religião tradicional. Elas têm uma longa experiência em observar intactas, de fora, os vai-e-vens das teorias científicas que se sucedem velozmente sem jamais chegar a qualquer conclusão definitiva, e por isso constituem o mais evidente exemplo, ainda dentro da temporalidade, do que seja a Eternidade. O resto é caos.

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Sábado, 24 de Novembro de 2007

Vibrações

Quando eu era espírita, uma das noções que me incomodavam era aquela, comum ao Espiritismo, à New Age e a outras correntes pseudo-religiosas modernas, de que há alguma coisa em nós que "vibra", isto é, que certas "vibrações" indicam "elevação moral" enquanto outras indicam seu contrário, que precisamos "vibrar por" outrem (que esteja com problemas, por exemplo), e por aí vai. Chato como sempre, eu vivia perguntando: "Gente, que 'vibrar' é esse? O que está 'vibrando'? Dá para medir minha freqüência, ou a de outro?" Mas nunca obtive resposta.

Passados alguns anos, essa antiga dúvida parece ter sido sanada. Um dos tópicos de ontem (23/11) da aula de Teoria do Conhecimento & Filosofia da Ciência I foram os precursores oitocentistas da psicologia experimental subjetiva do século XIX. Um destes precursores, o filósofo inglês David Hartley, parece ser, um tanto indiretamente, o originador da coisa.

Hartley, como quase todos os cientistas da época, estava bastante impressionado com os sucessos da Física de Newton, Galileu e cia. Incomodado com o fato de que as teorias psicológicas da época não se encaixavam bem na cosmovisão mecânico-determinista que inspirava a nova Física, propôs em seu livro Observations on Man, his Frame, his Duty, and his Expectations, de 1749, que nossas sensações subjetivas são na realidade vibrações numa espécie de "éter nervoso".

Para um mecanicista clássico, ações "à distância" eram consideradas pensamento mágico e vistas como impossíveis. Qualquer fenômeno físico, fosse qual fosse, teria sempre, necessariamente, que se dar por meio de partículas materiais batendo em outras partículas materiais, a exemplo de bolas de bilhar que vão transmitindo seu movimento umas às outras. Assim, o éter era a substância material e imponderável que se acreditava preencher o espaço entre os planetas e servir de meio de transmissão para fenômenos como o calor do Sol, a luz das estrelas, a gravidade etc.

O que Hartley supôs, portanto, foi: primeiro, que os nervos e o cérebro contém éter ou algo parecido ao éter; segundo, que nossas sensações subjetivas são na realidade esse éter nervoso vibrando sob o efeito dos impactos recebidos pelo corpo; terceiro, que essa vibração se propaga até chegar ao cérebro; e quarto, que o éter cerebral continua vibrando fracamente após receber a vibração vinda dos nervos, essa vibração residual constituindo nossa memória (os chamados "vibratiúnculos"). As memórias, sendo vibrações de partículas de éter, se enfraqueceriam com o passar do tempo (suponho eu), até que, cessado todo o movimento, as esquecêssemos.

Parece-me claro e verossímil que essa tese puramente mecânica, puramente determinista, e mais do que puramente moderna, se difundiu até entrar nos meios ocultistas e se tornar, com o passar do tempo, parte integrante das religiões surgidas nas décadas seguintes. Nisso ela compartilha o destino da teoria dos fluidos, uma antiga tese científica, hoje desacreditada, mas que subsiste no Espiritismo quase como artigo de fé.

Reconhecer que é a isso que se está fazendo referência quando se fala em "vibrações" é, penso eu, pôr mais um prego no caixão do dito "caráter científico" das religiões surgidas desde o século XVII: Ocultismo, Espiritismo, Teosofia, Nova Era e assemelhadas. Infelicidade para uns, felicidade para outros. No meu caso, quanto mais estudo, mas vou descobrindo que nada existe nesse meio que não seja, na melhor das hipóteses, variação quantitativa de características comum à modernidade como um todo. Diferenças qualitativas simplesmente não há: estão todas encerradas na modernidade, nenhuma a transcende. Não me restam mais dúvidas, portanto, de que eu ter me afastado dessas idéias foi uma decisão sensata.

Obs.: Revisado e expandido em 26 e 27/11/2007.

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