Proibição de Imagens

Para nós é bastante difícil entender as razões que levam às fortes restrições à produção de imagens de pessoas e seres vivos nas religiões monoteístas. Mas um pouco de Filosofia pode ajudar.

Em todos os povos, em todas as épocas, com a única exceção dos europeus a partir do século XV e daqueles por eles influenciados, o que atualmente inclui a maior parte do planeta, a mente humana sempre foi considerada passiva. O mundo era o elemento ativo, informando continuamente sua existência, suas características, sua realidade, a tudo e a todos. Conseqüentemente, ninguém “tinha” ou “produzia” idéias. Pelo contrário, quem expressava idéias eram as próprias coisas. Nosso papel de elementos passivos era apenas o de receber das coisas as Idéias — com “i” maiúsculo — das quais elas participam. Assim, por exemplo, ao ver um cavalo ou uma cadeira você não apenas recebia estímulos visuais (as cores, os formatos, a posição etc.), mas também recebia delas sua natureza de cavalo, sua natureza de cadeira etc. É como se dispuséssemos de um sexto-sentido capaz de perceber que aquela coisa é aquela coisa, e não outra.

Essas concepções formavam a base tanto do senso comum quanto da Filosofia antiga. E é dela que vem a melhor justificação racional da condenação da arte figurativa. Segundo Platão, no topo da hierarquia das Idéias está a Idéia de Bem, da qual tudo que é belo, e bom, e verdadeiro, participa. A rigor, somente a própria Idéia de Bem é rigorosamente boa, já que tudo o mais, inclusive as demais Idéias, no máximo “participa” de Idéia de Bem, sem no entanto ser ela. O que é o mal, pois, dentro dessa perspectiva? Nada mais, nada menos, do que o afastamento do Bem. O que nos leva a duas conseqüências: a) quanto mais distante algo estiver da Idéia de Bem, pior esse algo será; b) pode-se pensar esse afastamento como uma hierarquia. Observe, portanto, o que ocorre:

  • Temos no primeiro nível a própria Idéia de Bem. Ela é, por definição, a única total e completamente Boa.
  • Logo em seguida vêm as demais Idéias, como a de Grande, Cavalo, Triângulo, Humano, Vida e assim por diante. Elas todas participam quase que imediatamente da Idéia de Bem, além de serem imutáveis, eternas, imortais etc. Podemos dizer que estão a um grau de distância do Puro Bem.
  • Abaixo das Idéias temos o mundo concreto das coisas que nos cercam. Todas as coisas concretas participam de várias Idéias. Um ser humano é, por exemplo, participante das Idéias de Humano, Razão, Vida e muitas outras. Mas ele também participa das limitações do tempo e do espaço, crescendo, se movendo, envelhecendo, morrendo. Por serem participantes das idéias, pois, todas as coisas concretas são participantes indiretas da Idéia de Bem. Elas estão, por assim dizer, a dois graus de distância do Puro Bem.
  • E abaixo das coisas? Aqui temos tudo aquilo que participa apenas das coisas concretas, e não das Idéias que dão origem às coisas. É o reino da arte figurativa por excelência. Por quê? Porque quando um pintor pinta uma cama, ele está imitando aquela cama concreta, daquele quarto concreto, e não a própria Idéia de Cama. A arte figurativa, conseqüentemente, está a três graus de distância do Puro Bem.

Portanto, se o objetivo do Filósofo é o de promover o Bem, ele não pode ver valor na arte figurativa. Muito mais vale pô-la de lado e insistir com os homens para que se foquem na realidade concreta. Ou, melhor ainda, que se foquem no próprio mundo das Idéias, de onde as coisas que consideramos concretas obtém sua realidade. Afinal, na concepção clássica as Idéias são não apenas melhores, mas também mais reais do que todas aquelas coisas que meramente participam delas e as imitam, mesmo porque o Real também é uma Idéia que participa da Idéia de Bem.

O que não significa que todo tipo de arte é interdita. Para Platão, se um quadro busca representar não uma coisa, mas sim uma Idéia, ela é legítima. Um exemplo que ele próprio menciona é a antiga arte grega, desaparecida em sua época, e a arte egípcia. Por quê? Porque em ambas as imagens humanas são sempre, por assim dizer, “genéricas”, bidimensionais, e rigorosamente idênticas umas às outras, constituindo-se portanto perfeitos símbolos da Idéia Ser Humano, e não deste ou daquele ser humano em particular.

Sabendo portanto como Platão entende a questão, ele que provavelmente nunca ouviu falar do Judaísmo, ainda que tenha sido provavelmente o primeiro monoteísta grego em sentido estrito, observemos agora o que, precisamente, o Antigo Testamento proíbe:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.” (Êxodo 20:4)

Dada a explicação acima, como não ver que se trata da mesma interdição platônica, e até da mesma exceção? A arte figurativa que tenta imitar coisas (“semelhança do que há em…”), esta não pode. Já a arte que busca representar o mundo das Idéias, como por exemplo no desenho de figuras geométricas, nada contra.

No Islã o princípio é o mesmo:

Como contado por Aisha (a esposa do Profeta):
Comprei uma almofada com figuras (de animais) nela. Quando o Apóstolo de Deus a viu, ficou parado na porta e não entrou. Notei os sinais de desaprovação em sua face e disse-lhe, “Ó Apóstolo de Deus! Arrependo-me diante de Deus e Seu Apóstolo! Que pecado cometi?” O Apóstolo de Deus respondeu, “O que é esta almofada?” Eu disse, “Comprei-a para ti de modo que possas sentar-te nela em reclinares nela.” O Apóstolo de Deus disse, “Aqueles que fizeram estas imagens serão punidos no Dia da Ressurreição, e ser-lhes-á dito, ‘Dai vida ao que criastes.’” O Profeta acrescentou, “O Anjo da (Misericórdia) não adentra a casa em que existam figuras (de animais).”
(Bukhari, Volume 7, Livro 62, Hadith 110)

Assim como o é no Cristianismo, cujas vertentes tradicionais, seja o Catolicismo Romano medieval, seja a Igreja Ortodoxa, seja a Igreja Copta, tomam o cuidado de sempre desindividualizar toda e qualquer imagem figurativa de modo a não incorrer nem na proibição bíblica, nem na interdição platônica. Como bem explicou ontem um amigo meu, cristão ortodoxo, uma iluminura ortodoxa pode conter o desenho de alguns prédios para indicar que o cenário é uma cidade, mas será sempre apenas o número suficiente de prédios para indicar que se trata da Idéia de Cidade, nunca desta cidade em particular, e os próprios prédios serão distorcidos, para indicar que se tratam da Idéia de Prédio, e não deste ou daquele prédio em particular. Idem para humanos, animais, plantas, terrenos etc.

Agora, voltando a Platão: assim como há um terceiro grau de afastamento, também podemos supor que há um quarto grau, um quinto grau, um sexto grau e assim por diante. Desconfio que se ele voltasse à vida e tomasse conhecimento do que se entende hoje em dia por arte, sua reação seria do mais absoluto horror. Afinal, se a arte que ele critica é a que busca imitar coisas concretas, o que ele não diria, por exemplo, da arte impressionista, que busca expressar uma impressão subjetiva de uma coisa concreta? Ou da moderna arte abstrata, que busca expressar uma percepção particular de um estado subconsciente influenciado por impressões subjetivas? Ou pior ainda, de uma análise desconstrucionista de uma tal arte? Sem dúvida lhes atribuiria os graus subseqüentes, e viraria o rosto em desgosto.

Seja como for, por mais estranhas que nos soem tais proibições e restrições não são nem aleatórias, nem irracionais. Há fortes e sólidas razões por trás delas, ainda que a maioria de seus praticantes as ignorem. Bem entendidas, o desgosto se vai, e se não chegamos à aceitá-las para nós, pelo menos passamos a compreendê-las, e àqueles que as seguem.

Isso, por si só, já vale todo o esforço.