Vibrações - 2
Faz algum tempo que ando procrastinando a postagem desse texto. Mas é como se diz: antes tarde do que nunca.
Após postar o artigo Vibrações pude ter algumas conversas produtivas sobre o assunto com amigos, e um deles comentou o seguinte:
"Claro que por outro lado a neurociência moderna fala sim em 'vibrações'. Só que chamam a coisa de 'ondas cerebrais'. Quanto à freqüência, de 8 a 12 Hz são chamadas de ondas alfa, de 12 a 30 Hz, beta." - R.
Sim, verdade. Evidentemente não é disso que, seja Hartley, sejam as religiões modernas, falam. Mas é uma característica típica do processo científico reaproveitar aspectos pontuais de insights anteriores abandonados, mesmo porque é raro alguma idéia estar totalmente errada. Muitíssimo equivocada, sim, sem dúvida. Mas 100%? Difícil.
O problema com as religiões modernas, sobretudo aquelas que se pretendem "científicas", é que não fazem o mesmo. Cada uma toma o conhecimento científico do momento de sua origem, cristaliza-o em artigos de fé, e a partir daí busca reinterpretar a ciência subseqüente de modo a que se adapte à versão cristalizada. Que espírita, por exemplo, se contentaria em deixar de lado a noção novecentista de "vibrações", substituindo-a pelos prosaicos conceitos de relaxamento, concentração, sono, estado desperto etc. aos quais a moderna eletroencefalografia vincula as ditas ondas cerebrais? "Vou vibrar por você" é sem dúvida mais imponente do que um simples "vou pensar em você", ainda que essas duas sentenças expressem a mesma ação e nada digam a respeito dos "efeitos à distância" desse ato, supondo que os haja.
Essa fraqueza das religiões modernas diante de qualquer mínimo desenvolvimento científico é inerente a seu modo de formação. Sua fonte é puramente humana, e portanto, por definição, finita e temporalmente delimitada. Assim como seus fundadores, elas são sempre e invariavelmente "de seu tempo", o mesmo valendo para todas as atualizações que sofram, as quais, passados poucos anos, também se tornam "de seu tempo". É estrutural. Como a transcendência lhes é estranha e mesmo ininteligível, jamais alcançam qualquer validade permanente.
Evitar isso é simples: basta vincular-se à ortodoxia de alguma religião tradicional. Elas têm uma longa experiência em observar intactas, de fora, os vai-e-vens das teorias científicas que se sucedem velozmente sem jamais chegar a qualquer conclusão definitiva, e por isso constituem o mais evidente exemplo, ainda dentro da temporalidade, do que seja a Eternidade. O resto é caos.
Marcadores: ciência, espiritismo, filosofia, novaera, ocultismo, ptbr, religião, teosofia



2 Comentários:
Alexander,
Há tempos ouço de críticos do Espiritismo que esta seria uma religião excessivamente "materialista".
Sempre entendi esta crítica a partir do sentido coloquial da palavra "materialismo", isto é, que os espíritas estariam interessados numa vida confortável e rica, mais ou menos o que os evangélicos pentecostais/carismáticos em geral também desejam.
No entanto, a partir de suas considerações sobre as "vibrações" e a memória feita de éter, posso entender que o Espiritismo é materialista também sob o ponto de vista newtoniano? Ou tal crítica seria um exagero?
Abração,
Edward
Caro Edward,
Não, no sentido figurado da palavra, de "busca por bens materiais", os espíritas não são materialistas. Pelo contrário, são bastante desapegados, considerando que riqueza ou pobreza são experiências pelas quais o indivíduo tem que passar repetidas vezes ao longo de suas múltiplas vidas, e que portanto dar grande importância às posses é bobagem. Aliás, insistem em que todos que podem devem ser filantrópicos ao extremo, com toda a moral espírita girando em torno desse ponto.
É no sentido literal da palavra mesmo que se diz que o Espiritismo é materialista. Seu "além" é completamente material: o espírito seria um corpo feito de uma matéria especial (mas ainda assim matéria); haveria corpos materiais intermediários entre o espírito e o corpo grosseiro; entre uma vida e outra o espírito desencarnado habitaria cidades etéreas, existentes, como tudo o mais, dentro do tempo e do espaço; nessas cidades ele exerceria atividades variadas, estudaria e teria uma profissão; não há qualquer conceito de transcendência, eternidade ou infinito; as idéias platônicas são ou ignoradas ou reinterpretadas como corpos "sutis" revestindo corpos "grosseiros"; e por aí vai. Em suma, é como se a realidade fosse um prédio com vários andares, variando muito pouco de um para o outro, e os "espíritos" transitassem entre eles conforme a necessidade. Não há diferenças qualitativas, só quantitativas.
E sim, isso tudo é no fundo de base newtoniano-cartesiana, embora misturado a vários outros filósofos modernos. Com o detalhe de que alguns espíritas aqui e ali bem que tentam fazer o upgrade da coisa para perspectivas mais afins às das mecânicas relativística e quântica. Mas mesmo aí tudo continua sendo apenas e tão somente matéria, nada mais.
Alexander
Postar um comentário
Links para esta postagem:
Criar um link
<< Início