Alexander Gieg: Polêmicas!

O que se passa na minha mente, e algo mais.

Sábado, 24 de Novembro de 2007

Vibrações

Quando eu era espírita, uma das noções que me incomodavam era aquela, comum ao Espiritismo, à New Age e a outras correntes pseudo-religiosas modernas, de que há alguma coisa em nós que "vibra", isto é, que certas "vibrações" indicam "elevação moral" enquanto outras indicam seu contrário, que precisamos "vibrar por" outrem (que esteja com problemas, por exemplo), e por aí vai. Chato como sempre, eu vivia perguntando: "Gente, que 'vibrar' é esse? O que está 'vibrando'? Dá para medir minha freqüência, ou a de outro?" Mas nunca obtive resposta.

Passados alguns anos, essa antiga dúvida parece ter sido sanada. Um dos tópicos de ontem (23/11) da aula de Teoria do Conhecimento & Filosofia da Ciência I foram os precursores oitocentistas da psicologia experimental subjetiva do século XIX. Um destes precursores, o filósofo inglês David Hartley, parece ser, um tanto indiretamente, o originador da coisa.

Hartley, como quase todos os cientistas da época, estava bastante impressionado com os sucessos da Física de Newton, Galileu e cia. Incomodado com o fato de que as teorias psicológicas da época não se encaixavam bem na cosmovisão mecânico-determinista que inspirava a nova Física, propôs em seu livro Observations on Man, his Frame, his Duty, and his Expectations, de 1749, que nossas sensações subjetivas são na realidade vibrações numa espécie de "éter nervoso".

Para um mecanicista clássico, ações "à distância" eram consideradas pensamento mágico e vistas como impossíveis. Qualquer fenômeno físico, fosse qual fosse, teria sempre, necessariamente, que se dar por meio de partículas materiais batendo em outras partículas materiais, a exemplo de bolas de bilhar que vão transmitindo seu movimento umas às outras. Assim, o éter era a substância material e imponderável que se acreditava preencher o espaço entre os planetas e servir de meio de transmissão para fenômenos como o calor do Sol, a luz das estrelas, a gravidade etc.

O que Hartley supôs, portanto, foi: primeiro, que os nervos e o cérebro contém éter ou algo parecido ao éter; segundo, que nossas sensações subjetivas são na realidade esse éter nervoso vibrando sob o efeito dos impactos recebidos pelo corpo; terceiro, que essa vibração se propaga até chegar ao cérebro; e quarto, que o éter cerebral continua vibrando fracamente após receber a vibração vinda dos nervos, essa vibração residual constituindo nossa memória (os chamados "vibratiúnculos"). As memórias, sendo vibrações de partículas de éter, se enfraqueceriam com o passar do tempo (suponho eu), até que, cessado todo o movimento, as esquecêssemos.

Parece-me claro e verossímil que essa tese puramente mecânica, puramente determinista, e mais do que puramente moderna, se difundiu até entrar nos meios ocultistas e se tornar, com o passar do tempo, parte integrante das religiões surgidas nas décadas seguintes. Nisso ela compartilha o destino da teoria dos fluidos, uma antiga tese científica, hoje desacreditada, mas que subsiste no Espiritismo quase como artigo de fé.

Reconhecer que é a isso que se está fazendo referência quando se fala em "vibrações" é, penso eu, pôr mais um prego no caixão do dito "caráter científico" das religiões surgidas desde o século XVII: Ocultismo, Espiritismo, Teosofia, Nova Era e assemelhadas. Infelicidade para uns, felicidade para outros. No meu caso, quanto mais estudo, mas vou descobrindo que nada existe nesse meio que não seja, na melhor das hipóteses, variação quantitativa de características comum à modernidade como um todo. Diferenças qualitativas simplesmente não há: estão todas encerradas na modernidade, nenhuma a transcende. Não me restam mais dúvidas, portanto, de que eu ter me afastado dessas idéias foi uma decisão sensata.

Obs.: Revisado e expandido em 26 e 27/11/2007.

Marcadores: , , , , , , ,